Cristocentrismo

por Frei Edimar Fernando Moreira, O.Carm.

No modo de organização social do feudalismo, havia o dono da terra, chamado senhor feudal, e aqueles que o serviam. Era comum, para designarem aquele que era o seu senhor, os servos dizerem “eu vivo em obséquio de fulano de tal, senhor desta terra”. Encontrando um novo sentido para essa frase, os primeiros carmelitas que vão à Terra Santa passarão a dizer que “vivem em obséquio de Jesus Cristo”. Essa frase central é o rumo que a Regra do Carmo nos propõe e é o rumo de todo cristão.

A Regra do Carmo é bastante concisa. Contudo, apresenta doze referências diretas e cerca de oito referências indiretas a Cristo. O projeto fundamental estabelecido por Alberto, a pedido dos eremitas carmelitas, é o de caminhar nas pegadas de Jesus de Nazaré. Por isso, ele traça na Regra a maneira pela qual tais eremitas deveriam viver sua vocação universal de uma vida de compromisso com Jesus Cristo. Em todos os aspectos da vida carmelita, se deve viver em obséquio de Cristo.  Este “obséquio” se torna uma norma suprema e fundamental deles.

O Papa Francisco convida todo cristão, independente do lugar ou situação em que se encontre, “a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar” (EG 3). Santo Alberto percebe imediatamente esse elemento essencial que deve orientar a vida de todo cristão. O Carmelita, assim, em primeiro lugar, não é convidado a um modo de vida bem traçado, planejado, mas é compelido a uma pessoa: Jesus Cristo.

No tempo de Jesus, quem seguia a um mestre, tinha nele um exemplo de vida. Nem sempre era fácil para os discípulos entender a mensagem de Jesus. Essa convivência deles com Jesus lhes permitiam um confronto permanente. Jesus diz no lava-pés: “Vós me chamais de mestre e senhor, e dizeis bem. Portanto, se eu, que sou o mestre e o senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Eu vos dei o exemplo para que façais o mesmo que eu fiz” (Jo 13,13-15). Assumir, portanto, o compromisso de caminhar com Jesus exige de nós, carmelitas discípulos-missionários, acolher o mistério pascal de Cristo (vida, cruz e ressurreição) em nossa vida diária.

O carmelita será uma presença orante, fraterna e profética ao seguir os passos de Jesus. Trata-se, de configurar-se a Cristo, ter os mesmos sentimentos dele (cf. Fl 2,5). Uma pergunta que deveríamos responder diante das situações da vida é: “se Jesus estivesse aqui e agora, no meu lugar, o que Ele faria?” Por meio da meditação dia e noite na lei do Senhor, saberemos discernir a vontade de Deus para o mundo. Assim, o evangelho se torna critério fundamental de nosso agir no mundo.

 

quaresima

Iluminando com a Palavra

  • Ler Filipenses 2, 1-11.

 

  • Beato Tito Brandsma (1881-1942), mártir carmelita do período nazista, escreveu a bela oração abaixo diante de uma imagem de Cristo, na prisão de Scheveningen. Leia este poema-testamento e partilhe o que mais lhe chama a atenção.

 

Ó Jesus, quando te contemplo,

eu redescubro a sós contigo,

que te amo e que teu coração

me ama como um dileto amigo.

Ainda que descoberta exija

coragem, faz-me bem a dor:

por ela me assemelho a ti

que ela é o caminho redentor.

Na minha dor, me rejubilo:

já não a julgo sofrimento,

mas sim predestinada escolha

que me une a ti neste momento.

Pois de mim sinto-te tão próximo

como jamais antes senti.

Doce Jesus, fica comigo,

que tudo é bom junto de ti

Cristo é o centro da vida cristã e, logicamente, do Carmelita. O que significa “ter os mesmos sentimentos de Cristo” hoje?

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