A Construção Bíblica

Por Frei Filomeno dos Santos, O.Carm

A história do povo de Israel é uma história de salvação e também uma história de Revelação de Deus.

A gente pensa que os livros como estão na Bíblia foram escritos do jeito como estão. E que Deus teria “ditado” para alguém escrever.

Os fatos foram vividos num tempo e escrito muito tempo depois. Primeiro houve uma vida vivida na experiência de Deus, no meio do povo e bem mais tarde esta experiência foi escrita. A Bíblia é como casa de pobre que faz dois cômodos e depois vai fazendo o resto. (uma varanda na frente, um puxadinho atrás, etc.)

A maioria não sabia ler ou escrever porém, contavam e recontavam histórias que tinham ouvido, as quais lembravam sobretudo a presença de Deus e sua ação, que caminhava com eles. Provavelmente “ao redor da fogueira”, na comunidade, os mais velhos narravam os fatos do passado. Os salmos nos contam de certo modo esta tradição oral: “Aquilo que ouvimos e aprendemos e nossos pais nos contaram, não o encobriremos a seus filhos, nós o contaremos à geração seguinte: as glórias do Senhor e seu poder e as maravilhas que realizou” Sl 78,3-4; “Ó Deus, com nossos ouvidos escutamos, nossos pais nos contaram a obra que fizeste em seus dias, outrora” Sl 44,2-3. Também a narrativa e celebração da Páscoa, que era recordada e atualizada na celebração a cada ano (Ex 12).

Na sua história, Israel tem profissão de fé que demonstra como viveu com seu Deus: O Credo histórico de Israel – Dt 26,5-9: “Meu pai era um arameu errante…”, também Js 24,2-13, Dt 6,4-9. O povo de Israel revive a história por intermédio de seu credo histórico, que era uma espécie de oração repetida de geração em geração, nas principais assembleias religiosas.

A História é também recordada nos hinos dos Salmos: 105, 106, 135, 136 que são cantados e rezados. O contexto é de louvor a Deus por sua presença e ação no meio do povo. São momentos importantes nos quais se revela a relação histórica do povo de Israel com Deus. Cada israelita, em diferentes épocas e situações, assumiram essas experiências como se fosse sua e se identificaram com ela.

A História de Israel é como a de qualquer outro povo. O que muda é a maneira de olhar, interpretar e narrar os acontecimentos. É o que chamamos de “Releitura”. Ao narrar um fato longínquo do passado, Israel o reveste de um significado. Assim a narração de um fato que vem responder a uma necessidade litúrgica e catequética se torna mais importante do que o fato em si, porque o valor está na celebração e na catequese, e não no fato em si.

Em todas essas experiências, o povo reconheceu a voz de Deus, estas passaram a ser registradas por escrito.

A História do povo de Israel é uma História de Salvação e também uma História da Revelação de Deus. Ela parece uma grande parede de muitos “tijolos” colocados ao longo de um tempo, às vezes tão significativos que são colocados num outro lugar da parede. Assim poderíamos falar de tijolos: dos Patriarcas, do Êxodo, do Sinai, da Páscoa, Exílios, Profetas, Sabedoria, Salmos orações.

Os textos a que este tijolos são ligados, são escritos num determinado tempo, “Relido e Reescrito em outra época”.

Tradições populares antigas que essencialmente falam das ações de deus no meio do seu povo. Falam também das normas para a convivência, de valores éticos, como a defesa dos mais fracos; falam de mitos, de heróis populares, dos antepassados etc.

Tradições que foram ganhando corpo na memória popular até serem incorporadas na história oficial do povo. Esta última etapa se dá na corte e no templo, onde a tradição popular é convertida em narrativa oficial.  Aqui a história é relida, reescrita e ampliada até se tornar história sagrada, que conhecemos como Bíblia.

A escrita em Israel só começou no final do século VIII a.C. e início do século VII a.C. Temos documentos extra bíblicos que narram certos acontecimentos contados na Bíblia.

É provável que já existissem pequenas unidades, algo similar a pequenos folhetos de relatos sobre heróis, matriarcas e patriarcas, experiências fundantes, ditos tribais: histórias que se formaram oralmente em torno de poços, santuários populares (bamot), como Betel, Silo, Siquém, monte Tabor, Samaria, entre outros, das quais algumas foram incluídas nos registros dos anais das realezas de Israel, Norte e de Judá. (Betel – 2Rs 23,15-20 – Am 7,10-13)

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Sobre o Autor:

Frei Filomeno dos Santos, O.Carm

Professor, frade Carmelita e sacerdote da Ordem. Reside na Comunidade Tito Brandsma, em Curitiba.

 

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