Nasceu de uma mulher! (Gl 4,4)

... Uma mulher na História da Salvação!

                                                   Frei Claudemir Rozin, O.Carm.

             O nosso povo tem um carinho e devoção muito especial pela mãe de Jesus. E não poderia ser diferente. Ela é mãe da América Latina, mãe do nosso povo brasileiro, mãe de tantos filhos e filhas que a ela recorrem, principalmente nos momentos mais difíceis, e encontram ali o aconchego de um colo materno que acolhe, mas que também aponta o caminho a seguir: coragem, em frente, vamos enfrentar juntos esse “dragão”, salvar a vida, formar a comunidade dos que insistem em viver como irmãos e irmãs, filhos e filhas de um mesmo Pai… e de uma mesma mãe! O que faz dessa mulher ser tão especial assim?

            Muitos encontram nela várias virtudes, qualidades, exemplos, condutas, que a faz uma figura a ser seguida, imitada, venerada, reconhecida por aquilo que ela foi e fez. Mas, muitas vezes, ainda falta uma ligação mais clara de sua pessoa com um fato maior que vai além dela mesma. Considerar este aspecto seria alimentar a devoção à Virgem de forma mais profunda, comprometedora e fecunda.

           Até o Concílio Vaticano II (1962-1965), os manuais que tratavam da vida de Maria acentuavam esta posição ainda um tanto unilateral, não suficientemente ligada a uma teologia bíblica, isto é, à inserção desta mulher na história da revelação de Deus à humanidade. Acentuavam aspectos mais individuais e privilegiados da sua vida, do que realmente o que ela significava num contexto maior de sua existência. Com o Concílio, percebeu-se que, olhando para os textos bíblicos que se referem a ela e relacionando-os de forma mais precisa à história de seu Filho, Maria passa a ser muito mais do que um bom exemplo a seguir, um socorro ou lugar onde se refugiar, ou a mãe de ternura que nos “acomoda” em seu braço, mas não nos desafia a enfrentar aquilo que ela mesma teve que encarar: as consequências de assumir o projeto de vida de seu Filho.  Daquele que a chamou e enviou. 

          Assim, olhar para a “história de Maria” (sua pessoa, suas virtudes, suas qualidades…), sem olhar para a “história de Jesus” (seu projeto de vida, anúncio e denúncia, a concretização do seu Reino) é, no mínimo, perder o essencial daquilo que Maria nos oferece para aprofundar de nossa experiência da revelação do agir de nosso Deus. Ainda que suas virtudes e qualidades não precisem, nem devam, ser desprezadas, necessitam ser compreendidas dentro de uma visão maior: numa perspectiva unitária da História da Salvação, na qual Maria é parte integrante e a devoção a ela se sustenta.

    “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher…” (Gl 4,4). Neste texto cristológico, cuja encarnação do Filho é o aspecto central, Paulo acentua um momento crucial e mais importante da história humana: a “plenitude do tempo”, numa referência escatológica, ou seja, o momento de total comunhão entre o divino e o humano, que viveremos totalmente quando chegar a plenitude de nossa história. É neste contexto, nesta experiência, que é reveladora da maneira como Deus quer resgatar definitivamente sua criação, salvar o mundo e a humanidade, que se encontra e tem um papel importante esta “mulher”, a mãe de Jesus. O que o apóstolo nos conta é que, nesta história salvífica da ação do Pai, existe um lado humano, que expressa a fragilidade e abaixamento do Deus encarnado em nossa realidade, que revela o divino presente no ser humano e em toda obra criada, capaz de levá-los a uma “nova humanidade”, uma “nova criação”. Maria faz parte desse ápice de nossa história, que se manifesta na encarnação do Filho; ou ainda, ela quer nos conduzir a este momento, nos apontando para o essencial de nossa vida, de nossa existência.

        A “mulher”, de quem o Filho irá nascer, e que Paulo não faz questão de dizer o nome, é justamente este lado humano, esta abertura da humanidade, esta porta pela qual Deus quis vir ao encontro de seus filhos e filhas, ao encontro de toda criação. Portanto, a importância da Mãe de Jesus não se limita às suas virtudes ou aos seus méritos pessoais, mas ao fato de que Deus, pela abertura e acolhida desta mulher, a coloca na “plenitude do tempo”, no coração do mistério, totalmente inserida na História da Salvação. No texto paulino, vemos Maria apresentada inteiramente dentro desse contexto histórico-salvífico e numa posição central no mistério escatológico que envolve toda história humana.

               Por isso, sua presença não é secundária ou superficial. O mistério da mãe só se revela no mistério do Filho; a devoção e apreço à mãe, só se de dá no discipulado e seguimento do Filho. Esquecer esta verdade é diminuir a presença e papel de Maria, instrumentalizar ou desviar a devoção a ela para outros interesses, mesmo que esses nos pareçam justos e de sucesso, mas não alcançam aquilo que a própria Virgem espera de nós: formar verdadeiros discípulos e discípulas de seu Filho. Maria está vitalmente vinculada ao projeto salvífico de Deus em Jesus, e tudo nela nos aponta para ele. Sem este olhar não conhecemos realmente Maria, nem o que ela espera de nós, nem o que de fato significa para nós. Ou podemos ficar somente em ritos vazios, em orações triunfalistas, venerando sua pessoa, mas nos contradizendo aquilo que ela verdadeiramente deseja de nós.

               O que tudo isso pode nos ensinar? Podemos fazer um exercício de olhar para nossa  espiritualidade mariana, ou de nossa comunidade eclesial, e nos perguntar: por trás de nosso amor e devoção a Maria, do nosso justo reconhecimento por tudo o que ela é e representa para nós, está realmente o compromisso com o projeto de Jesus, a vivência concreta dos valores do seu Reino? Nossa devoção, mais do que a legítima busca de ser atendido pela sua intercessão em nossas necessidades, nos leva à conversão, à participação ativa em nossa comunidade, ao testemunho concreto da vida cristã? Se a resposta for afirmativa, estamos no caminho certo. Se ainda temos dúvida, ou se acharmos que não o suficiente, Maria pode não não estar muito contente conosco, ainda que fazemos tudo para agradá-la. Pensemos um pouco nisto!

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