Nasceu de uma mulher! (Gl 4,4) – Parte 2:

... uma mulher como "irmã-eremita" no Monte Carmelo.

                                                                                                 Por Frei Claudemir Rozin, O.Carm.                     

              Na tradição do Carmelo, Maria estava presente numa pequena capela construída no “centro” do eremitério, entre as celas onde os conhecidos “irmãos da Virgem” habitavam e viviam na solidão, “meditando dia e noite na Palavra do Senhor”. Segundo relatos da época, essa capela era dedicada à Santíssima Virgem, o que sugeriu que os irmãos-eremitas fossem conhecidos como “Irmãos de Nossa Senhora do Monte Carmelo”, de onde cresceu toda a devoção mariana presente até hoje na Ordem a ela consagrada. 

              Esta capela, diz a história, acolhia um bonito ícone de Maria, a mais antiga representação mariana da Virgem do Carmelo, conhecida como “La Bruna”, quer dizer, “a morena”, tendo em vista a cor de sua pele representada na pintura. Esta imagem original, de acordo com a tradição carmelitana, é aquela que é cultuada no Santuário de Nossa Senhora do Carmo em Nápoles, na Itália. Nela podemos contemplar a “Virgem da Ternura” que, segundo o modelo iconográfico da época, representava Maria com seu Filho nos braços e o seu rosto sereno apoiado no rosto do menino Jesus.  

             Podemos nos perguntar: essa tradição existente nas origens do Carmelo, a presença de Maria que caracterizou o nome e a espiritualidade da Ordem, o fato de Maria também “habitar” no Monte Carmelo, além de toda devoção e veneração a ela que os/as carmelitas herdaram da sua história, do seu carisma, teria algo a mais a nos apontar? Talvez sim, se pensarmos nesta mulher como “moradora” justamente num lugar central daquela comunidade, estando muito presente na vida daqueles que buscavam discernir a vontade de Deus e viver no seguimento de seu amado Filho. De um lugar central daquele Monte, “habitando” também no seu “eremitério”, parece que a Virgem tem algo a mais a falar aos seus irmãos e irmãs, filhos e filhas que querem viver a espiritualidade do Carmelo.

            Diz a Regra do Carmo, n. 14: “O oratório, conforme for mais fácil, construa-se no meio das celas e aí vos devereis reunir todos os dias pela manhã para participar na celebração eucarística, quando as circunstâncias o permitam”. Nos recentes estudos da “forma de vida”, oferecida aos carmelitas no berço de sua origem por Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém, fica cada vez mais claro que o fato de sugerir que a capela seja construída “no meio das celas” não tem um sentido somente arquitetônico ou prático, mas parece indicar um sentido principalmente teológico. Sinalizaria o que seria “central” no projeto de vida desses irmãos-eremitas que viviam individualmente na solidão de suas celas, e marcaria o modo de viver a espiritualidade na origem do carisma carmelitano. 

                Esta “centralidade” do oratório certamente trazia um significado profundo do que deveria ser realmente o “centro” da vida daquela comunidade: um movimento de “saída”, de complemento entre a solidão da cela e o encontro da comunidade, base pra se viver a fraternidade. A cela era o lugar da habitação de cada um, onde viviam na solidão, na oração, na escuta da Palavra, na experiência da mais íntima relação com Deus. Este “isolamento” físico é quebrado quando, entre outros momentos, são convidados a se reunirem, especialmente para a Eucaristia. Assim, devem “sair” da cela, virem para o centro, evitando a tentação de viver um “individualismo” espiritual, ou uma “autorreferencialidade”, para usar as atuais palavras do Papa Francisco. Convergir todos para o “centro”, para o encontro com o outro, alimenta a vida em comunidade, concretiza o valor central da fraternidade. O oratório comum coloca os frades eremitas num movimento de “vir-para-juntos”, mostrando que a solidão, a oração, a escuta da Palavra não é isolamento, fechamento, separação, individualismo, muito pelo contrário, a experiência da cela deve motivar e impulsionar o movimento para fora, para o encontro, a partilha, a relação fraterna, enfim, para a comunhão com Deus e os irmãos e irmãs. 

               Desta forma, eles celebravam a Eucaristia, “centro” daquele projeto de vida, que os comprometia com a comunhão, com a partilha, com a fraternidade, sob os olhos de Maria, aos pés daquele ícone que representava a presença dela entre eles. Dentro deste contexto, não poderíamos também pensar num simbolismo mariano da presença da Virgem no Carmelo? Não seria interessante considerar que a devoção a ela também estava intimamente ligada à “centralidade do oratório”, ou seja, o movimento de saída, o compromisso de comunhão que sugere o projeto de seu Filho? 

           Parece que a presença de Maria, que “habitava” o oratório no centro do Carmelo, indicava, ou confirmava, que os frades/irmãos, para viver a espiritualidade carmelitana, deveriam também sair do “isolamento”, e fazer o movimento ao contrário do fechamento, de uma espiritualidade somente “eu”, para ir ao encontro, experienciar e concretizar os valores rezados e meditados na solidão da cela. Tais valores se realizavam nas relações fraternas, nos gestos de partilha e solidariedade, ao considerar o outro e suas necessidades. Para então depois retornarem à cela, à intimidade com Deus, com sua Palavra, que alimenta e dá sentido ao encontro, pois é a essência de toda comunhão. Um movimento de “saída” e, consequentemente, de “retorno” para nutrir a espiritualidade, o fundamento dos valores que sustentam as novas “saídas”, os novos encontros, as novas relações. São os dois lados da mesma moeda, ou seja, da essência do amor a Deus e ao próximo, que leva à vida de fraternidade, centro daquele carisma, e de toda proposta cristã. 

              Parece que a “centralidade” da capela dedicada a Maria, que evoca a centralidade da Eucaristia, do projeto de Jesus, é fortalecida pelo desejo e exemplo da Virgem: que a nossa vida de intimidade com Deus, na contemplação e escuta da sua Palavra, se torne testemunho concreto de comunhão fraterna, de “saída” ao encontro do próximo, principalmente daqueles/as que mais sofrem, que mais padecem. A própria vida desta nossa mãe e irmã no Carmelo foi assim, um constante “partir”, sair de si para ir ao encontro: com o Anjo (Lc 1,26-37), com a prima Isabel (Lc 1, 39-45), com os mais pobres (Lc 1,46-56; 2,8-20), para o refúgio no Egito (Mt 2,13-23), para reencontrar o Filho no Templo (Lc 2,41-52)… até às últimas consequências do encontro diante da cruz (Jo 19,25-27). Parece que a Igreja “em saída” proposta pelo Papa Francisco não está muito longe desta espiritualidade. 

             O que isso pode nos ensinar? Talvez Maria queira nos mostrar que quanto mais experimento Deus na oração, na solidão, na mais profunda intimidade com Ele, mais alimento o desejo e necessidade de comunhão, de partilha, de compromisso com o Cristo eucarístico, que está presente na nossa história, principalmente no “rosto dos mais necessitados e oprimidos”, lembrando novamente dos apelos insistentes do Papa Francisco. A Eucaristia radicaliza o ato de “sair de nós mesmos”, porque somos atraídos, arrastados pela experiência da Palavra e pela profundidade do mistério pascal, da Morte e Ressurreição, da entrega total da vida que resgata a vida por amor. 

             Se a nossa devoção mariana, nossa oração e louvor à Virgem do Carmo, nos fecha em nós mesmos, não nos leva a essa “saída”, ao movimento para o centro, para o que é “essencial”, ao compromisso fraterno que vem da Eucaristia, alguma coisa está estranha, precisa ser questionada. Pode ser que esta espiritualidade está ainda muito trancada só “dentro da cela”, muito voltada “a nós mesmos”, o que pode causar uma “ilusória” experiência de Deus, uma aparente devoção a Maria. Precisamos, então, rogar à Nossa Senhora do Carmo que nos ajude, com seu exemplo e testemunho, para que nossa espiritualidade se encarne nas nossas relações fraternas, para não se tornar um ritual enganoso, individualista, ainda que realizado junto com outras pessoas, mas sem o compromisso concreto com o Reino de seu Filho. Pensemos um pouco nisso!

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