Nasceu de uma Mulher (Gl 4, 4) – Parte 3:

... Uma mulher presente na devoção popular de seus filhos e filhas.

                                                                                                     Por Frei Claudemir Rozin, OCarm.

          A maioria de nosso povo é marcada por uma religiosidade que nos vem do berço, das experiências e devoções nas quais participamos desde criança, seja pelo seu significado religioso, por aquilo que elas representam, ou até mesmo por um costume. A devoção a Maria é uma das práticas mais presente nesse sentido. Quem nunca participou desde pequeno de uma procissão mariana, da reza do terço, de uma oração ou novenário à Virgem, de uma romaria ao Santuário de Aparecida, e tantos outros momentos marianos presentes na vida de nossas famílias. Lembremos ainda de tantos nomes que Maria foi recebendo com o passar do tempo diante das experiências mais diversas com a participação desta mulher. Sem dizer que a Ave-Maria, muitas vezes, é uma das primeiras orações que aprendemos de memória, que começamos a rezar. 

          A importância da devoção popular mariana em nosso povo, em nossa Igreja, não se discute. Foi ela que, muitas vezes, sustentou a fé simples das pessoas, e deu coragem para enfrentar os momentos mais difíceis, em que sentimos o desejo da proteção e auxilio da mãe, que nos acolhe em seus braços e nos encoraja para enfrentar os desafios e retomar a vida. Porém, diante de algumas formas em que elas se apresentam e são praticadas durante muito tempo, frequentemente presente em nossa espiritualidade, e pela importância e a valorização destas devoções, não significa que não mereçam, ou necessitem, uma reflexão, um aprofundamento, ou até mesmo uma “purificação” de alguns elementos ou sentidos que possam ser deslocados ou distorcidos com o passar do tempo. 

          O respeito e valorização das devoções populares não significa simplesmente acolher qualquer prática piedosa só porque surgiu no meio do povo, porque reúne muitas pessoas, alimenta em nós interesses particulares, ou ainda porque mostra a “força” da Igreja perante outras denominações religiosas. Respeitar e incentivar a devoção popular não quer dizer que devemos ser ingênuos e fechar os olhos, como se toda piedade que vem do povo é sempre positiva e nunca precisa de um discernimento, uma ponderação, ou uma certa “conversão”. Os próprios bispos da América Latina, na Assembleia Geral de Aparecida (2007), reconheceram esta preocupação ao afirmar que é necessário “evangelizar” e “purificar” tais devoções para que assumam sua riqueza evangélica (cf. DAp, 262). 

          O Concílio Vaticano II (1962-1965) já tinha demonstrado esta preocupação ao abordar a devoção mariana no Documento Lumen Gentium, cap. VIII, que fala da presença de Maria no mistério de Cristo e da Igreja. Afirma-se que “a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e imitar as suas virtudes” (LG, 67). Na verdade, o Concílio reconhecia que o problema é que muitas práticas da devoção mariana estavam desvinculadas de uma perspectiva mais cristológica, concentrando-se muito na pessoa de Maria, mas não ligando-a de maneira suficiente à pessoa e ao projeto de seu Filho. Admitem que a própria Igreja católica, durante muitos séculos, enalteceu tanto a pessoa de Maria que se perdeu o necessário equilíbrio com a figura de Jesus. Agora era preciso recuperar a centralidade cristológica da espiritualidade mariana, na qual a Virgem, sua devoção e seu culto, estão totalmente inseridos, dependentes e significados. 

          A devoção popular mariana, o amor e veneração a Nossa Senhora, é muito importante e necessária para a vida eclesial, pois chega muitas vezes aonde ninguém vai, nem mesmo a Igreja consegue atingir. Mas é preciso praticá-la na linha do evangelho, da proposta de Jesus, se queremos ser coerentes com o que a própria Mãe de Deus espera de nós. Não podemos nos contentar apenas com Igrejas cheias, com novenários atraentes, com grandes movimentos, com tantas pessoas louvando Maria com os lábios, se não atingimos as pessoas com uma verdadeira “conversão”, evangelização. Muitas devoções atraem os devotos/as por oferecer aquilo que eles “querem receber”, e não por aquilo que “podem ser”; para “resolver” seus problemas pessoais, sem mostrar que o maior problema é justamente esse fechamento, uma atitude voltada só para si mesmo ou para os seus, sem um compromisso comunitário, eclesial, que leva à partilha e comunhão fraterna. Sem falar ainda de algumas devoções que, mesmo às vezes inconsciente e sem maldade, estão mais em função do sucesso do pregador ou do prestígio de seus dirigentes, do que na formação de discípulos e discípulas de Jesus, como nos pede e fez sua Mãe. 

          É preciso sempre lembrar que em nenhum momento Maria quer ser o centro da devoção a ela dirigida, mas sempre uma seta, uma direção, um caminho que leva ao centro que é Jesus. Tudo na Virgem aponta para o Filho, para o seu projeto, para os valores de seu Reino. Isto fica mais claro quando descobrimos e valorizamos o fundamento bíblico de cada devoção, qual inspiração ou aspecto do projeto de Jesus que ela nos desperta, nos sugere, nos desafia e nos compromete. Só assim compreendemos a presença de Maria e sua devoção totalmente inserida na História da Salvação. Toda devoção mariana deve ser fundamentada na Palavra de Deus. Se não encontramos, direta ou indiretamente, esse fundamento bíblico e não o evidenciamos nas práticas devocionais, precisamos nos perguntar se esta devoção está cumprindo o seu papel de evangelização e compromisso com a proposta de Jesus. 

          O que tudo isso pode nos ensinar? Talvez seja preciso olhar para nossa devoção mariana e nos perguntar o quanto ela nos ajuda a viver no discipulado de Cristo, o quanto ela está fundamentada na sua Palavra e no compromisso concreto com o seu Reino, numa vida de fraternidade. Talvez temos que ter a coragem de perceber que, muitas vezes, limitamos a devoção mariana ao aspecto da súplica de sua intercessão diante de nossas necessidades – e é claro que Maria também quer ser presença nos momentos difíceis de nossa vida e ajudar a superá-los –, do que proporcionar uma experiência que nos coloca, a partir da realidade e desafios que encontramos, num processo de abandono, conversão, participação, solidariedade, comunhão com um projeto de vida maior. 

          Que bom quando descobrimos que os “meus” problemas e dificuldades, que me levam a pedir o socorro da Mãe, são também os “nossos” ou os mesmos de tantos outros irmãos e irmãs; e que somente juntos, como comunidade cristã, podemos enfrentá-los e superá-los, não somente para mim, mas para “nós”. Quem sabe aí descobrimos o sentido verdadeiro da devoção popular que nos une como Igreja, e descobriremos que este seja o seu grande sentido evangelizador. Talvez assim ela alcance aquilo que Maria espera e realmente deseja de nós, de nossa devoção, de nosso amor a ela: que vivamos, em comunidade, o projeto de comunhão de seu Filho. Pensemos um pouco nisso!   

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