Nasceu de uma Mulher (Gl 4, 4) – Parte 4:

... Uma mulher que nos ensina a vestir o "avental".

por Frei Claudemir Rozin O.Carm | Um dos símbolos que mais marcam a devoção e consagração da Ordem Carmelitana a Nossa Senhora do Carmo é, sem dúvida, o seu Escapulário. Ele é justamente um símbolo, pois, por trás do “revestir-se com esta veste”, esta faixa de tecido caído na frente e atrás através dos ombros, cobrindo o hábito dos/as carmelitas, temos um grande sentido espiritual e teológico que vai além do seu simples uso sobre nosso corpo. Na sua origem, esta veste era usada, não só pelos monges, mas também pelos funcionários de palácios e instituições, como uma espécie de “avental” para proteger a roupa no momento de trabalho. Hoje, o Escapulário, simbolizado nas duas pequenas imagens revestidas de pano e ligadas com um cordão, é usado por muitas pessoas no mundo inteiro, de diferentes idades e culturas, até mesmo pelos jovens surfistas que o usam para pedir a proteção daquela que foi conhecida como a Estrela do Mar. 

Encontramos atualmente Escapulários de todos os tipos, formas, materiais, usados por muitos motivos e significados, desde aqueles que vivem a sua espiritualidade, até os que usam quase como um “amuleto” para se proteger ou atrair a sorte, como se a sua atuação fosse quase como de uma “mágica”. Sabemos que as devoções populares, com o passar do tempo, muitas vezes precisam ser “purificadas” de seus acréscimos ou sentidos que distorcem sua identidade, ainda que elas devam ser também inculturadas e relidas em cada tempo e lugar. 

Então, afinal, qual o sentido original que dá identidade à devoção do Escapulário? Porque ele se tornou na Igreja um “sacramental”, ou seja, um sinal sagrado que manifesta uma semelhança com os sacramentos, gerando na vida das pessoas uma espiritualidade que as levam a viver um “estado de graça”, um compromisso eclesial. Sendo assim, seus efeitos são obtidos pela intercessão de toda a Igreja e, por isso mesmo, esta devoção não pertence unicamente à Ordem do Carmo, mas nos leva à oração e participação da Igreja como um todo. Diante disto, vale a pena compreendermos um pouco mais o significado e sentido de usar o Escapulário, fazendo parte de toda Família Carmelitana que vive esta espiritualidade. 

A devoção do Escapulário não está presente ou indicada na Regra do Carmo, mas é uma tradição posterior. A palavra vem do latim scapula, quer dizer, escápula, numa referência ao osso da região dos ombros que sustentava a faixa de pano que envolvia o hábito como um “avental”. Infelizmente, na pouca tradição escrita que se tem das origens da Ordem, não há um registro oficial do início desta devoção. Mas, segundo relatos da tradição oral, ela começou com o frade inglês Simão Stock que foi superior da Ordem. Na segunda metade do séc. XIII, quando os carmelitas passavam por momentos muito difíceis, por terem sido expulsos do Monte Carmelo e encontrado uma dura realidade de sobrevivência na Europa, o religiosos carmelita recorre à Virgem com suas orações para que ela socorresse a Ordem naquele momento obscuro de sua história. Em uma visão, que não se sabe bem se foi num sonho ou uma experiência mística, Maria vem até ele entregando-lhe o Escapulário e dizendo: “Isto é para ti e para os teus um privilégio. Aquele que morrer com ele será salvo”. 

O fato foi considerado como uma “consagração” da Ordem à Virgem e o compromisso de estar “ao seu serviço”, recebendo dela a sua proteção, o que garantiu a conservação da Ordem e permanência dos carmelitas presentes até hoje. Mas, falava-se em estar “ao serviço de Maria”? Não deveria ser de seu Filho? Como se pode compreender esta mudança? Esclarece-se o sentido desta afirmação se lembramos que Maria foi tida desde as origens no Carmelo como a “Senhora do Lugar”, numa relação à estrutura feudal em que vivia o povo daquela época. Se Jesus era o “Senhor”, o “dono” daquele lugar, ao qual os carmelitas deviam viver “em obséquio”, a seu serviço, para receber sua proteção, a mãe de Jesus também recebe o título de “Padroeira”, isto é, a “Senhora/Patrona” do lugar. Para servir o Filho, serviam também a Mãe, aquela que zelava e protegia seus “filhos/irmãos” os quais, por sua vez, também se colocavam ao seu serviço. A ideia de “proteção”, tendo como contrapartida o “serviço”, é o que está na base daquela sociedade feudal, sendo agora relida na experiência espiritual que os carmelitas tiveram no Monte Carmelo. 

Portanto, receber e usar o Escapulário é se “consagrar” a Maria para viver sob a sua proteção. Não se pode esquecer, porém, que tal consagração confirma o que Deus já fez por nós em nossa primeira e definitiva consagração: o Batismo. Este sacramento é a nossa divinização pela graça recebida de sermos filhos e filhas de Deus, princípio e fim de toda vida a ele consagrada. Desse modo, usar o Escapulário é reconhecer que não somos auto-suficientes e que precisamos da ajuda divina que, neste caso, buscamos através da intercessão de Maria, de sua proteção e amparo materno. E isto acontece em comunhão com toda a Ordem do Carmo, ou seja, com o jeito de viver o seu carisma, a sua devoção a Maria. O próprio rito de imposição do Escapulário deixa claro que ele é um sinal de comunhão com a Ordem e um desejo de participar de sua espiritualidade, renovando nosso compromisso batismal de “revestir-se do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14). Desta forma, é preciso também conhecer a tradição do Carmelo, sua presença e missão na Igreja e na sociedade. 

Nossa resposta a esta consagração é o “serviço” a Maria que, no fundo, é o seguimento de seu Filho: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Assim, usar a veste do Escapulário, pedir a proteção da Virgem, é também assumir um compromisso: vestir o “avental”, colocar-se a “serviço”. Esta atitude nos leva a transformar a íntima união com Deus, através do seguimento de seu Filho, sob o exemplo e testemunho de sua mãe, numa saída de si mesmo para um serviço humilde e constante ao próximo, numa vida de comunhão que gera fraternidade. 

Por essa razão, o símbolo do Escapulário é visivelmente “relacional”, ou seja, nos leva às relações, ao encontro com os irmãos e irmãs. Ele nos indica um profundo relacionamento com Deus e com o próximo, pois no cristianismo ninguém deve servir a si mesmo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida…” (Mt 20,28). A própria Eucaristia, no Evangelho de João, é lavar os pés, colocar-se a serviço (cf. Jo 13,1-17). Nesta nova atitude e compromisso de vida está a salvação apontada por Maria naquela visão: morrer usando o Escapulário é morrer usando o “avental”, a conclusão de uma vida colocada a serviço, na coragem de ter saído de si mesmo para o encontro, para a partilha, para a comunhão. Só assim seremos “salvos”, isto é, retornaremos ao projeto inicial daquele que nos criou: uma vida de fraternidade. 

O que tudo isso pode a nos ensinar? Antes de tudo podemos nos perguntar se usamos, ou queremos usar, o Escapulário com o significado e espiritualidade que este símbolo nos traz desde sua origem. Se já nos despertamos para este seu sentido de “serviço”, de vestir um “avental”, de assumir novos relacionamentos fraternos como resposta da proteção que esta veste sagrada nos traz; se percebemos que o Escapulário nos envia a ser uma Igreja servidora, onde os dons e serviços partilhados formam uma comunidade de comunhão, vivendo sob cuidado e amparo da Mãe de Deus. Muitas vezes, tal sentido não é devidamente divulgado e conhecido, e então o carregamos apenas como alguma coisa “mágica”, uma espécie de “amuleto” para se proteger dos perigos, mas que não nos compromete, não nos coloca na atitude de serviço, de abertura a Deus e ao próximo. 

Não há dúvida que o Escapulário, como consagração a Maria, nos coloca sob sua proteção, sua intercessão, sua atenção materna que nos socorre em nossas necessidades. Mas, esta proteção requer de nós uma resposta, um compromisso. Embora a riqueza da inculturação desta espiritualidade nos diversos povos e lugares, com seus variados significados, enriqueçam tal devoção, seu sentido original, sua identidade, principalmente o aspecto do “serviço”, não pode se perder ou ser ignorado. Senão o Escapulário se torna apenas um objeto externo, e não uma experiência de vida, uma espiritualidade que nos transforma. E, se usar o Escapulário é também estar em comunhão com o carisma da Ordem do Carmo, o qual nos indica uma vida de contemplação na oração, na fraternidade e no profetismo, a partir da vocação, do estado de vida de cada um/a, é grande o desafio e compromisso que ele nos pede. Mas, vale a pena revestir-se desta experiência. Pensemos um pouco nisso! 

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